Projeto HO

Hélio Oiticica foi um dos artistas brasileiros mais inquietos e mais radicais, não resta dúvida. Uma mente apolínea cavalgando num corpo dionisíaco. De um lado o olhar de um engenheiro e do outro a leveza de um passista. Hélio passou pelo mundo como um furação e deixou um mundo muito diferente depois de si.

Sua carreira foi marcada por uma explosão de formas e movimentos que ganhavam a cada momento uma nova dimensão. Da superfície plana do quadro alargou-se em Objetos, e dos Objetos expandiu-se para os Ambientes, e dos Ambientes atirou para a mais imprevisível das dimensões, a Vida, o movimento humano, a imprevisibilidade de uma pessoa que invade uma obra de arte.

Hélio foi um abridor de caminhos, um derrubador de barreiras, um artista sempre disposto a saber o que existia do outro lado do fim. Sua busca incessante dentro das formas da arte tinha tudo a ver, também, com a sua forma inquietante às vezes assustadora de viver a vida. Sentia-se nele uma urgência, uma aceleração de todos os processos, como se fosse preciso experimentar todas as linguagens antes que elas morressem de indiferença.

Em seus momentos mais sensoriais, sua obra é a história dos que sambam no carnaval, dos que para brincar na rua envolvem em objeto, em texturas, em superfícies, pelo simples prazer de se fantasiar. E quando vira os olhos para a vida depois da festa, ele conta também a história dos que caem crivados pelas balas da guerra sem assinatura, dos que servem corpos expiatórios para apaziguar a culpa coletiva. Uma de suas obras contribuiu para batizar o movimento Tropicalista, que, entre muitas outras contribuições, trouxe música popular brasileira um diálogo fecundo com as artes plásticas, com a musica erudita experimental e com a poesia de vanguarda. Tropicália Tornou-se símbolo de um momento do Brasil e de toda a obra do artista. Símbolo de um choque cultural entre dois hemisférios, entre dois continentes, em choque entre forças que vão e vem, que refluem e logo avançam de novo, uma verdadeira pororoca erguendo no ar os que se dispõem a ver por dentro esse mar de imagens, de signos, de temas, e de aspirações ao grande labirinto.

Por fim, deve-se dizer que a arte de Oiticica continua atual, e pode ainda cumprir um papel literário. Uma arte que vai na contramão do atual retrocesso de valores, representado pelo recrudescimento de segregações, por extremismos, ódios, racismo, homofobias, e por tentativas de legitimar a repressão as manifestações de liberdade e de sensualidade.

Por Juca Ferreira, Ex-ministro da Cultura.